Tributo à minha mãe

A única certeza que tinha durante toda a minha infância é que a minha mãe sempre estaria ali. Afinal, desde que nasci, ela me amparou e jamais nos desgrudamos. Amigos, vizinhos, parentes, escolas, casas..todos passaram porém, eu tinha certeza que ela nunca passaria. Lembro-me  muito bem,  de, em alguns momentos de insegurança,  ter confirmado com ela esta minha certeza e ela sempre respondeu que   ficaria para  semente . Com esta resposta eu sempre me punha a correr sorrindo feliz.
Certa feita, já mais velha, questionei o que isso queria dizer exatamente. E, com muito cuidado, ela me explicou que no mundo, as pessoas precisam morrer para que outras venham a nascer, porém, provavelmente ao ver meu triste semblante, ela continuou explicando que Deus permitia que algumas pessoas ficassem, como sementes, para produzir mais frutos e novas mudas.
Com pesar, descobri que minha mãe me contara algumas poucas mentiras. Por exemplo, ela  me contou que uma ave chamada  cegonha trazia bebês e que Papai Noel, um bom velhinho, trazia presentes para crianças boazinhas.De maneira alguma, fiquei frustrada ou magoada quando descobri que estas histórias não eram verdadeiras; entretanto, sofri muito ao me deparar com a dura realidade de que aquela pessoa que sempre me acompanhou, que sempre estivera comigo, não mais faria parte deste mundo.
O inimaginável me atingiu. A história de ficar para semente  também não era verdadeira. Por muito tempo pedi muito a ela, que resistisse e não me abandonasse. Implorei chorando e dizendo que eu precisava muito dela. Todavia, percebi que o sofrimento era muito grande e que era eu que não deixava que ela se desligasse pois, mais  uma vez, como tantas outras, ela pensava primeiro em mim.Quando tive consciência disso,  resolvi que teria que ter a conversa mais difícil da minha vida. Sozinha com ela, tomei coragem, engoli o choro e disse que eu estava muito bem e que ficaria muito bem, que ela não precisava mais ficar neste mundo. A missão dela estava cumprida e ela poderia voltar para os braços de Deus que a esperava. Ainda reforcei que eu ficaria bem e que ela não precisava mais sofrer e se preocupar comigo, poderia seguir seu caminho em Paz.
 Naquela noite, ela se foi. Acredito que ela estava realmente esperando pelas minhas palavras para partir pois já havia se passado um ano desde que os médicos a desenganaram e ela permanecia lutando e sofrendo. Foi e é muito difícil. Às vezes, me arrependo, talvez se eu tivesse pedido para ela ficar...mas, depois vejo que cada um tem seu momento. Ela já havia cumprido a missão dela.
Por outro lado, descobri que ela ficou para semente sim. Ela nunca mentira. Ela ficou em tudo que me ensinou  em tudo que vivemos juntas.
            Esta semana recebi um email em que a autora dizia eu me tornei a minha mãe, e é exatamente isso. Com o passar dos anos, me vejo repetindo as mesmas frases, contando as mesmas histórias, agindo como ela agia. Surpreendo-me fazendo escolhas com base no que ela já dissera ou  no que acho que ela diria. Sonho com ela e, nestes sonhos, ela puxa minhas orelhas, me aconselha, faz pedidos ou, simplesmente, me abraça. Acordo e fico triste durante o dia todo, pois por alguns segundos senti o toque, o afago e queria mais. A realidade ainda é dura, porém hoje tenho certeza que ela jamais mentiu pois ficou realmente pra semente  em cada gesto ou palavra minha para o resto da minha vida. Prefiro acreditar nas palavras de Guimarães Rosa: minha mãe não morreu, ficou encantada. 




Este texto de minha autoria foi publicado no blog da jornalista Rosana Valle em setembro. Visite o blog:
http://hotsites.tvtribuna.com/tvtribuna/blogrosanavalle/default.asp?idCategoria=7

Em nove de setembro de 2011, publicado no hotsite da Tvtribuna.com
http://hotsites.tvtribuna.com/tvtribuna/blogrosanavalle/default.asp?paginaPost=&paginablog=3&titulo=&IdCategoria=7&mes=&ano=


Cópia da página do blog da jornalista Rosana Valle:


set08

Nossas mães ficaram encantadas

Crônicas
Foto: Nossas mães ficaram encantadas

    Olá amigos.
    Hoje, peço licença para publicar aqui no blog o texto de uma grande amiga... que falou à minha alma. Vivemos histórias parecidas. Nossas mães ficaram encantadas!
    Um beijão a todos!
    Rosana

    texto: Anna Maria Santos da Silva

    A única certeza que tinha durante toda a minha infância é que a minha mãe sempre estaria ali. Afinal, desde que nasci, ela me amparou e jamais nos desgrudamos. Amigos, vizinhos, parentes, escolas, casas..todos passaram porém, eu tinha certeza que ela nunca passaria. Lembro-me muito bem, de, em alguns momentos de insegurança, ter confirmado com ela esta minha certeza e ela sempre respondeu que ficaria para semente . Com esta resposta eu sempre me punha a correr sorrindo feliz.

    Certa feita, já mais velha, questionei o que isso queria dizer exatamente. E, com muito cuidado, ela me explicou que no mundo, as pessoas precisam morrer para que outras venham a nascer, porém, provavelmente ao ver meu triste semblante, ela continuou explicando que Deus permitia que algumas pessoas ficassem, como sementes, para produzir mais frutos e novas mudas.

    Com pesar, descobri que minha mãe me contara algumas poucas mentiras. Por exemplo, ela me contou que uma ave chamada cegonha trazia bebês e que Papai Noel, um bom velhinho, trazia presentes para crianças boazinhas.De maneira alguma, fiquei frustrada ou magoada quando descobri que estas histórias não eram verdadeiras; entretanto, sofri muito ao me deparar com a dura realidade de que aquela pessoa que sempre me acompanhou, que sempre estivera comigo, não mais faria parte deste mundo.

    O inimaginável me atingiu. A história de ficar para semente também não era verdadeira. Por muito tempo pedi muito a ela, que resistisse e não me abandonasse. Implorei chorando e dizendo que eu precisava muito dela. Todavia, percebi que o sofrimento era muito grande e que era eu que não deixava que ela se desligasse pois, mais uma vez, como tantas outras, ela pensava primeiro em mim.Quando tive consciência disso, resolvi que teria que ter a conversa mais difícil da minha vida. Sozinha com ela, tomei coragem, engoli o choro e disse que eu estava muito bem e que ficaria muito bem, que ela não precisava mais ficar neste mundo. A missão dela estava cumprida e ela poderia voltar para o s braços de Deus que a esperava. Ainda reforcei que eu ficaria bem e que ela não precisava mais sofrer e se preocupar comigo, poderia seguir seu caminho em Paz.

    Naquela noite, ela se foi. Acredito que ela estava realmente esperando pelas minhas palavras para partir pois já havia se passado um ano desde que os médicos a desenganaram e ela permanecia lutando e sofrendo. Foi e é muito difícil. Às vezes, me arrependo, talvez se eu tivesse pedido para ela ficar...mas, depois vejo que cada um tem seu momento. Ela já havia cumprido a missão dela.

    Por outro lado, descobri que ela ficou para semente sim. Ela nunca mentira. Ela ficou em tudo que me ensinou em tudo que vivemos juntas.

    Esta semana recebi um email em que a autora dizia eu me tornei a minha mãe, e é exatamente isso. Com o passar dos anos, me vejo repetindo as mesmas frases, contando as mesmas histórias, agindo como ela agia. Surpreendo-me fazendo escolhas com base no que ela já dissera ou no que acho que ela diria. Sonho com ela e, nestes sonhos, ela puxa minhas orelhas, me aconselha, faz pedidos ou, simplesmente, me abraça. Acordo e fico triste durante o dia todo, pois por alguns segundos senti o toque, o afago e queria mais. A realidade ainda é dura, porém hoje tenho certeza que ela jamais mentiu pois ficou realmente pra semente em cada gesto ou palavra minha para o resto da minha vida. Prefiro acreditar nas palavras de Guimarães Rosa: minha mãe não morreu, ficou encantada.

    blog: www.considerasobreeducacao.blogspot.com


    9 comentários:

    1. Anna,

      Você escreve muito bem, tem muita sensibilidade. Adoro suas postagens, sempre me acrescentam algo de bom.
      Emocionei-me especialmente com o "Tributo a minha mãe"

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    2. Anna,
      Parabéns pelo post. Excelente!

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    3. claudia roberta angst19 de setembro de 2011 21:47

      Lindo, Anna! Com certeza, a semente ficou e brotou em você. Muitas flores e frutos virão desse amor. Encantados são todos os seres que amamos e que se foram. beijos.
      Claudia Roberta Angst

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    4. Anna, acabei de dar uma olhadinha rápida no seu blog, e me chamou a atenção o Tributo a minha mãe... acabei de ler e entendi todas as suas palavras, e faço delas as minhas... passei por esse mesmo momento de dor, tristeza, tive a mesma conversa e agora a enorme saudade... hoje tb sonho com minha mae e acordo triste por ela nao estar mais aqui, mas mto feliz por ela me visitar e se fazer sempre presente.... vou roubar e levar essa frase comigo: minha mãe não morreu, ficou encantada. um grande beijo!
      quarta às 23:40

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      Respostas
      1. Querida Ana,
        Hoje , pela primeira vez vi seu blog e não poderia deixar de comentar o " Tributo à minha mãe".
        Nem preciso dizer o quanto isto me emocionou e o quanto as lágrimas insistem em vir ...
        Lembro muito de sua mãe. Quando éramos adolescentes adorava ir à sua casa e gostava demais de ouví-la falar. Era tão bom estar com uma pessoa tão doce , amiga e que sempre tinha um conselho para nos dar.
        Ao ler suas palavras penso muito em minha mãe e em minha filha...
        Sabe Ana, quando meu filho foi atropelado e estava na UTI eu estava sozinha e ao abrir minha carteira encontrei a foto de sua mãe da missa de 7 dia. Nesse momento pedi a ela que intercedesse a Jesus por por meu filho... e sei que ela me atendeu...
        Um beijo

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      2. Obrigada pelas suas palavras. Ela me faz muita falta mesmo. Gostaria de ser um pouquinho a mãe que ela foi. Ela é, sem dúvida, um espírito de muita luz epor isso acredito que tenha te ajudado muito. Até hoje, ela ainda aparece em meus sonhos para me dar conselhos, explicar algo ou me confortar. Mais uma vez , obrigada!

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    5. Sabe Anna Silva, meu pai também dizia que viraria semente. E realmente eles não mentem, viram sementes. Em nós. E fica menor dolorido com o tempo, mas a saudade na verdade não diminui, apenas aprendemos a conviver com ela. E como sua mãe, meu pai também precisou entender que estaríamos bem. E hoje passo a meus filhos os ensinamentos recebidos, esperando também cumprir meu dever. Débora Matias

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    6. Querida Anna eu me vi em você. As lágrimas fizeram parte da leitura do seu texto tão perfeitamente elaborado. Graças a Deus tenho minha mãe que é minha base ainda viva. E eu agradeço a muito a Deus por isso. Minha mãe é encantada, brilha em todos os lugares por onde ela passa. Acredito que a sua a acompanha e realmente realiza tudo o que você falou em seus sonhos. Mãe deveria ser eterna, e ela é eterna. Um grande abraço e que Deus a abençoe. Laura Barros

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    7. Muito obrigada, Laura Barros!!! Todos acabamos passando por isso, amsi cedo ou mais tarde, não é? Tb choro toda vez que leio meu próprio texto, se isso serve de consolo..Bjos! obrigada.

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