domingo, 2 de outubro de 2016

Minha vida de mãe de intercambista

Quando esta aventura começou, eu pensei que não conseguiria sobreviver a este ano. Ficar um ano longe do meu filho parecia impensável. Imaginei que sucumbiria em dois meses. Por que um ano? Seis meses seriam mais que suficientes. Ledo engano. Começo a achar que o período deveria ser de dois anos. Acredite em mim, mudei de ideia.
Após meses de documentos, planilhas, testes, entrevistas, o dia da partida chegou.
( veja: http://www.consideracoessobreeducacao.com.br/tecnica-para-nao-chorar-no-aeroporto/ )
Sempre sonhei com uma família grande. Eu era ainda adolescente já me imaginava com quatro filhos, queria uma mesa cheia de gente. Acabei tendo apenas dois, mas o programa de intercâmbio trouxe-me mais filhos. Oficialmente, recebi em minha casa um alemão, um mexicano e duas francesas. Mas, na verdade, meus fins de semana eram repletos de hóspedes fixos e eventuais. Hospedei intercambistas vindos dos mais variados países e distritos: turcos, mexicanos,italianos, tchecos, americanos, dinamarqueses, belgas.. Os vizinhos e amigos diziam que a ONU se reunia em casa.
O objetivo do Programa de Intercâmbio foi plenamente atingido, aprendemos a compreender a cultura de outros países e almejar a Paz no mundo pois criamos laços permanentes em todas as partes do mundo.


Enquanto nossos filhos biológicos estavam em intercâmbio, nós, mães, também vivemos o nosso intercâmbio, inclusive de filhos com o troca-troca de famílias hospedeiras. Definitivamente, foi um ano para aprender que as despedidas fazem parte da vida. Mas, também, criamos laços de amizade no Brasil e no exterior para toda a vida.

Carpe Diem: filosofia de um intercambista

Por que a vida de intercambista é tão especial?
Amigos,  viagens, baladas, aventuras, liberdade.  Tudo isso, além de aprender ou aperfeiçoar um idioma e aprender sobre a cultura de um país, parecem ser razões suficientes para sonhar com este ano especial. É um ano de tanto aprendizado, que é sempre usado como referência no CV para o resto da sua vida.
Na verdade, todo intercambista é digno de admiração. Largar seu país, seu lar, familiares e amigos e mudar  para um outro país, começar uma nova vida do zero. Para muitos, significa perder o ano escolar, inclusive.
Já se imaginou morando por um ano em uma outra casa com pessoas que você nunca viu antes em sua vida? E ainda por cima nem entendem o que você diz? Sem falar na viagem de horas, muitas vezes sozinho.
Tem que ter muita coragem mesmo!!!
E por que um ano? Antes de viver esta experiência, eu também achava que era tempo demais. Hoje vejo que é o período perfeito. É o tempo que a pessoa leva para dominar  fluentemente o idioma, não tropeçar nos costumes,  vivenciar um ciclo completo e desligar-se por completo do que ficou. Após este período chega o duro momento de voltar à realidade…o GAP year termina. Todavia, constrói-se  um gap year recheado de ensinamentos e experiências.
Muitas coisas boas  acontecem, porém coisas nem tão boas também acontecem. Incidentes,  desencontros, doenças, controvérsias, dificuldades de adaptação e um milhão de coisas corriqueiramente podem surgir. É assim que se fica independente e amadurecido. Um crescimento forçado e necessário.
Os valores sofrem ajustes e mudanças. Adquirem-se mais alguns, desenvolvem-se outros, estabelecem-se laços, desfazem – se outros. Também é um ano de reflexão.
Nesta reflexão, um intercambista  me explicou:
“Sabe porque este ano é tão intenso, especial e único? Porque sabemos que é só por um ano e cada vez que estamos cansados, desiludidos com saudades ou achamos que está muito difícil, lembramos que é só por um ano. Então, nos erguemos e vamos viver. Sem preguiça, sem medo..é só por um ano!”
Nada será novamente igual. A vida segue seu curso como sempre: as pessoas crescem, mudam, os intercambistas vão e vêm. Momentos que jamais se repetirão. Quando absorvemos a lição de que nada será igual novamente, passamos a viver mais o hoje e levamos em nossa memória e em nosso coração o aroma, o sabor das comidas típicas, as risadas, as palavras, o sorriso, as lágrimas, as músicas e as  centenas de histórias.
Fica a grande lição: CARPE DIEM.

Pra que ter um filho?

Meu filho era bem pequeno, talvez uns seis anos e me perguntou de chofre, ou seja sem rodeios,  “mãe , você teve filhos para te dizer aonde você estacionou o carro no estacionamento do shopping?”  Ri sem parar com essa colocação e fiquei pensando se ele teria noção do quanto custa ter e educar um filho. Sairia bem mais barato  andar de táxi toda a minha vida!!
Bem, Içami Tiba defende que os filhos devem se sentir parte da família  e  para que esse processo aconteça é necessário que cada membro da família tenha obrigações claras dentro da engrenagem familiar. Dentre as tarefas de meu filho, como fazer compras, cuidar de nossa cachorra e trocar lâmpadas, estava a de deletar as páginas e pastas que cismam em surgir todo dia em meu celular. A causa deve ser a tal  de geração espontânea que Darwin defendia. Este processo acontece em meu celular todo dia. Meu lindo filho, de vez em quando, pegava meu celular e fazia uma limpa.
Um tempo antes de partir, eu questionei-o sobre como eu faria depois que ele mudasse para o outro lado do Equador e do Greenwich. Muito prático, ele me respondeu “ pede para seus alunos ou para os intercambistas.”
Bem, restou-me rezar para que essa multiplicação cessasse naturalmente, porém isto não aconteceu nem com todas as minhas preces para Nossa Senhora protetora dos celulares e das mães abandonadas.
O resultado não foi positivo e rapidamente lá estavam as páginas surgindo em meu celular novamente. Pedi para uma amiga que não soube fazê-lo e me sugeriu que fosse à loja.
Decidida que não me deixaria vencer por uma página que ousa surgir sem ser convidada para assombrar meu celular, e um pouco de vergonha misturada com orgulho, comecei o caminho normal: tentativa  e erro. Após algumas tentativas seguidas de diversos erros, a Luz se fez e aprendi!! Sou até capaz de alterar o lugar dos ícones!!! Com certeza, ele voltará diferente, entretanto, encontrará também uma mãe diferente!
Aprendi que sou capaz de fazer muitas coisas sozinha. Mas, ainda não achei a receita para sentir menos saudade.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Saudade de comida

Você já deve ter dado vários presentes de Dia das Crianças, Natal e aniversários, não é?
Meu filho está em  um programa de intercâmbio e me cobrou que queria o presente de dia das crianças. E qual não foi minha surpresa ao ler na mensagem do what´s app que ele queria guaraná de presente??? !!!!! Ele raramente  bebia guaraná!!!! E, ainda acrescentou, feijoada e café.  
O que não faz uma viagem….
Já sentiu saudades de um idioma? Eu já. Percebi que esse sentimento existia ao chegar no aeroporto no Brasil e ouvir as pessoas falando em português. Foi uma sensação tão gostosa! Eu já havia feito várias viagens, mas sempre em países onde a língua predominante é o inglês e, neste caso, sinto-me completamente à vontade, como primeira língua mesmo. Porém, após um período na Argentina, ouvir português foi um bálsamo.
Numa outra viagem, observei como meus companheiros de viagem sentiam tanta falta  da comida brasileira a ponto de procurar restaurantes brasileiros.
Particularmente, não sinto falta de gêneros alimentícios, mas do idioma, às vezes um pouco. Vontade de afeto e de expressar coisas que veem das entranhas,  bem visceral lá da época da gestação quando ouvíamos a voz de nossa mãe ainda dentro do útero materno.
Enquanto isso, vou caprichando no guaraná para meu filho intercambista e nas paçoquinhas, porque sei que ele também sentirá saudade desses itens quando voltar para a terra dele. Às vezes, intercalo com “ himbeeren” para que ele amenize a saudade de casa também.
Afinal, saudade é o amor que fica! E se temos saudade é porque vivemos e bem!!! Por isso, resta-nos agradecer é relembrar.

Como dar um up no seu cérebro?

Você quer mesmo evitar rotina e dar um up no seu cérebro? Receba intercambistas em casa.
Como dizem minhas amigas, minha casa é uma subsede da ONU. Mas, não pense que é sério e formal como o nome que a intitula. Na verdade, é despojada e divertida. Um dia nunca é igual ao outro..Às vezes, chegam cinco para o jantar, dormem oito em casa, mas apenas dois ou talvez até dez para o almoço….nunca se  sabe…tudo depende da programação.
O mais engraçado é meu cérebro fazendo ginástica entre as várias línguas. Preciso falar português para que eles aprendam, porém frequentemente preciso traduzir em inglês. Por vezes, me pegam distraída e a mensagem sai em outra língua ou em mais de uma ao mesmo tempo.
Esta semana enquanto  eu dirigia um jovem perguntou ao outro qual a diferença de fuso entre o país dele e o Brasil. Ele respondeu 3 horas e eu acrescentei: -“ Agora, because estamos em horário de verão. ” Ao me ouvir desatei a rir de minha frase bilíngue.
Num outro dia, recebo mensagem de meu filho dizendo que está em casa. Como eu estava na porta de casa, respondi escrevendo: -“Ish bin zuhause aussi.” Mais uma vez misturei alemão e francês.
Para completar, meu filho alemão me pergunta esta manhã – Mãe , você pode comprar isto para mim? E  já vai mostrando e perguntando  como se diz em português. Eu, por minha vez, que estava organizando algumas contas, olho para ele e não sei responder…só me ocorre a palavra em inglês…Então, ele sorri e pergunta para a irmã. Minha filha prontamente, sem pestanejar, responde “-Lâmina.” O pior é que ao elogiá-la e dizer como ela é inteligente, ela me responde; – Mãe, conheço minha própria língua.” Tomba-lhe como dizíamos quando criança.


Das duas uma, ou eu comprovo a teoria que falar mais de um idioma retarda o envelhecimento do cérebro ou o oposto….O futuro dirá..fiquem de olho!

Dois meses

Há dois meses, Jona Kaiser chegou ao Brasil, sorridente, um pouco tímido, mas com olhar meigo e curioso. Falando apenas “Obrigado” em português, iniciou sua jornada num país onde não apenas a língua, mas também o clima, a cultura, os esportes e a rotina seriam bem diferentes.
Frente a tantos desafios, sua voracidade de aprender e experimentar coisas novas foi expressa em inglês “Quero experimentar todas as frutas. Dizem que são deliciosas.”
Assim, de fruta em fruta, doce em doce, atividade em atividade, festa em festa, Jona foi aprendendo e, ao mesmo tempo revelando seu lado extrovertido, líder e muito do Bem.
Na verdade, meu filho disse que Jona passou seus primeiros dezesseis anos de vida, treinando para ser brasileiro, pois a pontualidade nunca foi seu ponto forte na Alemanha e aqui no Brasil ele está completamente à vontade com a flexibilidade de horário – para horror dos outros intercambistas.
Hoje, após dois meses, fala português surpreendentemente bem conjugando verbos, usando as preposições, escrevendo mensagens e, inclusive, falando ao telefone.
O melhor de tudo para mim, como host mother, foi ouvir em bom português: ”Em dois meses aqui, não tive nenhum dia ruim.”
Aquela máxima prevalece “Quando se inicia uma jornada pensando positivamente, o Universo conspira a favor.”

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

À terrra onde fores ter, faze como vires fazer.

Ir em um programa de intercâmbio não é “pros fracos não”,  o processo  exige além do teste de  conhecimentos gerais e de língua,  um zilhão de documentos que por si só já é desanimador. Na verdade, acaba sendo uma grande prova. Se você conseguir cumprir todas as exigências, não há dúvida de que superará qualquer empecilho.
Nestes termos,  meu filho resolveu “enfiar o  pé na jaca”, já que é pra ir em intercâmbio, porque não Taiwan, Coreia ou Índia? Imersão total em outra cultura.  Ninguém poderá afirmar com tanta propriedade que algo não é errado, apenas bem diferente e deve ser respeitado.
Em dois meses,  as etapas vão se sucedendo: dinheiro,  locomoção , amizades, comportamento e linguagem.
Com certeza, não irão parar por aí. Somos frutos de uma programação que foi iniciada ainda no ventre materno. Por isso, é difícil vencer alguns hábitos para assumir outros. Neste caso, para ajudar no processo, uma ferramenta importante é a observação. Olhar com atenção, como se comportam, agem, fazem, respondem. Este é o olhar que a criança tem por isso aprende rapidamente, pois observa atentamente e copia os gestos, trejeitos e palavras. Observe quanto tempo uma criança fica olhando um animal numa visita ao zoológico, por exemplo. Ela se  detém nas minúcias. Com o passar dos anos, vamos perdendo essa capacidade. E, hoje em dia, com os olhos sempre voltados para a tela perdemos mais ainda essa capacidade. Paralelamente, para contribuir ainda mais com essa desatenção aos detalhes que nos cercam, não há mais predadores prontos para nos atacar e nosso sistema cerebral primitivo está sendo modificado.
Após dois meses num outro país, o mínimo necessário para sobreviver já está internalizado, mas resta  torná-lo um hábito  e apreender as minúcias, pois a jornada está só começando. Uma jornada muito além de conhecer outros povos, trata-se de mergulhar para dentro de si mesmo rumo ao auto-conhecimento. Descobrir o que é característica sua ou de seu país, o que me leva a agir assim, porquê faço assim, e se é possível também fazer de outro jeito.
Quando você vem de uma família com uma mãe latina super atenciosa, carinhosa  e prestativa, pode ser o grito de independência ou o desespero. Será a hora  de aprender a sobreviver sozinho. O mais importante é manter a mente e o coração abertos para o novo sem julgamentos e acreditar que tudo dará certo, não importando o quanto pareça fadado ao fracasso.
Para encerrar, lembro-me de um provérbio português recitado constantemente por minha mãe para nos ensinar a importância do observar, aceitar e imitar: “À terra onde fores ter, faze o que vires fazer”. Assim, como imigrante, minha mãe falava de cátedra, com a experiência de quem viveu, sofreu, venceu e aprendeu.